"A sociedade é maior do que o mercado. O leitor não é consumidor, mas cidadão.
Jornalismo é serviço público, não espetáculo" (Alberto Dines)

23 de agosto de 2010

La Tomatina: Brincadeira ou inconsequência

Atração turística de Buñol gera questionamento sobre o uso de comida para justificar diversão

A Tomatina de Buñol, tradição da cultura espanhola, está para acontecer. Festa mundialmente conhecida, a Tomatina é nada mais que uma guerra de tomates entre cerca de 40.000 pessoas do mundo inteiro, reunidas numa gigante brincadeira que ocorre todos os anos. A celebração tem duração de uma hora, a partir do primeiro lançamento de foguetes que servem de aviso para início e término da brincadeira.

Foi em 1945 que tudo começou. Um grupo de jovens garotos se envolveu numa confusão onde o tomate virou a principal arma de ataque. No ano seguinte, o mesmo aconteceu, só que dessa vez, propositalmente. Quem quisesse participar, trazia seus tomates. Desde então, toda última quarta-feira de agosto, a festa realizada no município de Buñol - na província de Valência - recebe milhares de turistas, como em nenhuma época do ano uma cidade de aproximadamente 10.000 pessoas poderia receber.

Com mais de 125 toneladas de tomate, cinco caminhões circulam pelas ruas com destino à praça central de Buñol, para que a festa comece. Independentemente de raça, cor ou credo, turistas vindos de todos os cantos da terra chegam com apenas uma finalidade: jogar comida nos outros e ter muita história para contar mais tarde. Para alguns, o evento é considerado tolo ou mesmo um desperdício de comida, e mesmo na Espanha a sua realização já foi questionada.

Nos anos 50, as autoridades de Buñol tentaram, sem êxito, proibir a festa. Porém, em 1957, moradores locais fizeram diversos protestos, até que a famosa La Tomatina começou a fazer parte do calendário de eventos oficiais do país. Em 2002, a celebração foi nomeada pela Secretaria Geral de Turismo de Valência como Festa de Interesse Turístico Internacional. A previsão é de que a cidade receba 40.000 pessoas, que se reunirão às 11h (local, 15h de Brasília) no dia 25 de agosto para dar início à “guerra”.

Entre o desperdício e a diversão

Também conhecida como horta da Espanha, Valencia é quem produz os tomates distribuídos aos participantes. Ainda assim, o economista Júlio Marcos Limeira, formado na Universidade de São Paulo (USP), afirma que o evento, apesar de relevante para o turismo, resulta em um grande desperdício. “(O uso dos tomates) Poderia ser revertido em ajuda a países pobres e sem perspectivas de avanço prévio. Até mesmo em diversos tipos de ajuda ao próprio município. Milhares de tomates desperdiçados podem alimentar milhares de crianças subnutridas”, ressalta.

A brasileira Roseli Campanela Albuquerque, 25, estudante de Letras que ano passado participou do evento, no entanto, acredita que os dois lados devem ser avaliados. “Confesso que durante a brincadeira, mesmo fazendo parte daquilo me questionei a respeito da fome pelo mundo afora, e isso me incomoda, mas me convenci de que aquilo é cultura, é o mercado de turismo, é a economia deles”, conta. O sucesso da festa entre os turistas e o crescente número de participantes a cada ano mantém a tradição viva, apesar da polêmica que ela pode gerar.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a marca de 1 bilhão de pessoas passando fome já foi ultrapassada. E ainda no ano de 2009, em decorrência da crise econômica mundial, a FAO alertou sobre a situação global. “Pela primeira vez na História da humanidade, mais de um bilhão de pessoas, concretamente 1,02 bilhão, sofrerão de subnutrição em todo o mundo”, afirma a instituição.

Matéria publicada no Web Jornal O Estado RJ
Por Renata Asp
http://www.oestadorj.com.br/?pg=noticia&id=5345&editoria=

14 de agosto de 2010



Futebol X Política

A disputa entre a paixão nacional e um assunto não muito agradável para todos

Depois de mais um famigerado Campeonato Mundial em 11 de Junho até 11 de Julho, o cidadão brasileiro começa a assimilar a proximidade da eleição (3 de outubro) de novos representantes para o país. Entre elas a eleição do presidente da república. Com apenas um mês de duração a Copa do Mundo 2010 pôde tirar de cena os até então protagonistas Dilma e Serra (não esquecendo a coadjuvante Marina Silva), para colocar em close o técnico da seleção brasileira: Dunga, e seus escolhidos - para tristeza da grande maioria dos brasileiros - jogadores.

As eleições para Presidente, Governador, Senador, Deputado Federal e Deputado Estadual ocorrem a cada quatro anos, e algo que dura apenas um mês, pode afugentar opiniões políticas de um cidadão que por quatro anos refletiu em sua escolha ruim de governo.
Esse desvio de foco no olhar do povo brasileiro - que guarda um sentimento de antipatia declarada pela política - é derivado de fatores infelizes e até então presentes na chamada: democracia.

Os dois grandes eventos do ano estão ocorrendo em menos de seis meses e se tornam metas principais dos diversos tipos de mídias nacionais. A plena participação desses meios de comunicação nessa história toda faz a grande diferença.
Junho de 2010 a mídia reforça esperanças para com o melhor futebol do mundo. Meses seguintes, relembra a importância do voto consciente e tenta converter a esperança de um bom futebol em bom governo.

O cientista político e conselheiro do Movimento Voto Consciente Dr. Humberto Dantas diz que : “Não é uma questão de COPA apenas, é um caso de paixão pelo futebol que vai além.” Para ele, a Copa não é na verdade uma intervenção tão nociva quanto pode parecer, já que outros países como a Alemanha também passam por processo semelhante.
“Parte desse problema não é apenas das pessoas, mas também das pautas da imprensa. Isso desvia a atenção, afasta o debate da política do cotidiano, e remete para o sonho do futebol.”, afirma.

A última que morre

Opiniões divergem dentro de um universo tão complexo quanto é a política para a sociedade e a sociedade para o fator febril que é o futebol brasileiro.
Quando questionado sobre suas esperanças para 2014 em relação à Copa e a atuação dos eleitos neste ano, o estudante Felipe Leandro, 19, declarou não conseguir mais ter expectativas em um bom e justo governo. “A injustiça está em processo hereditário. Infelizmente as chances de hexa em 2014 são maiores que uma atuação satisfatória do governo.”

Maria Victoria Benevides, socióloga e professora de Educação da USP, afirma que o brasileiro na maioria das vezes tem como atuação política somente o voto. E, por conseguinte passa então a apresentar maior interação quando se trata de casos específicos, ou seja, que os afetam diretamente. O que não acontece no caso do futebol; um mero entretenimento.

Mesmo que ainda principiante, a participação política do brasileiro não deixa de incentivar a esperança em ter esperanças. Para o estudante de jornalismo Laerte Conde , 47, ainda tem jeito: “Não acredito que a seleção brasileira ainda tenha chances de bom desempenho na próxima Copa, mas ainda tenho esperanças de um governo mais justo e de uma sociedade mais satisfeita com a política brasileira”.

Com mais da metade da população desinteressada em política, o Brasil conta com mais da metade da população sem voto consciente. Com mais da metade da população interessada em futebol, logo o Brasil conta com mais da metade da população interessada em: futebol. E como é de se prever, o interesse político da sociedade brasileira pode não chegar um dia a exacerbar tanta esperança quanto a da torcida brasileira nos Campeonatos Mundiais, porém ainda é de se esperar que tal assunto seja - o quanto antes - tratado em níveis significativos de importância.

1 de agosto de 2010




Quem Será Que Peidar

Ó, quem será que peidar
Que tire o cú da reta e não demore
Com a mão amarela, se inocente
Que sem prova concreta não dá pra pegar
E todos os trambiques irão te salvar
Com todos os auxílios da previdência
E todo benefício da leniência
E todos os decretos que te aliviam
Pois quem não tem vergonha quando chafurdar
Não entende desespero por coisa alguma
Pois que não tem decoro, nem nunca terá
Porque que não tem castigo.

Ó quem será quem peidar
Que apague a luz dos aeroportos
Pra debaixo do tapete todos os mortos
E vem gente me pedindo: relaxa e goza
Colhendo os impostos para a mesada
Na eterna incompetência do governante
Mostrando com orgulho a falcatrua
Na dança do larápio que ganha a rua
Enquanto que a gente a se perguntar
Aonde é que a gente então vai parar
E se não tem remédio, pra quem implorar
A quem não dá ouvido

Ó quem será quem peidar
Desfaça o flagrante dos mensaleiros
E faça um desagravo pros brasileiros
É só um feriado que a gente esquece
Se benza duas vezes com a mão na massa
Com cara de enlevo ninguém vai notar
Triplique o dinheiro pra olimpíada
Com a cara de tacho que te consagra
No próximo vexame ninguém vai lembrar
Não há merecimento nem nunca haverá
Por que ninguém exige nem exigirá
Tua cabeça a prêmio.

Composição: Lobão
Hino do movimento "Peidei mas não fui eu",
criado pelo cantor, compositor, VJ, ativista, etc.