"A sociedade é maior do que o mercado. O leitor não é consumidor, mas cidadão.
Jornalismo é serviço público, não espetáculo" (Alberto Dines)

31 de julho de 2010


- Sem Final Feliz -

Uma família que tinha tudo para ser feliz. Como nos contos de fadas!
Alexandre e Anna Carolina Jatobá se amavam, e como em muitas histórias de amor, existia também a ex-esposa de Alexandre.
Ainda assim, o casal, mantinha o elo mais forte que um casal pode ter além do amor: a Princesinha Isabella de apenas 5 anos.

Infelizmente o amor entre Alexandre e Anna Carolina vinha acompanhado de ciúmes; que faria de Anna uma verdadeira Bruxa Malévola.

Anna Jatobá se incomodava com a Princesinha por ela não ser de fato sua filha, mas sim da ex-mulher de seu amado. O que só aumentava seu sentimento de raiva.
Depois de muitas voltas da casa do pai com sinais de agressão, a Princesinha parecia cada vez menos querer estar junto ao pai, como relatou sua verdadeira mãe. 
A Madrasta e Bruxa Malévola começou a agredir a garota, em atos de covardia e por motivos fúteis. Alexandre, o Pai, se acostumou e já não se opunha mais.

Esse amor doentio e desgovernado que Anna Jatobá [Madrasta] e Alexandre Nardoni [Pai] possuíam uma pelo outro, os tornaram cúmplices de um crime hediondo. De cenário: Uma família feliz. Um contexto que nunca faria alguém imaginar no que estava por vir depois de um longo passeio de compras.
Na noite do dia 22 de março de 2008, na Zona Norte de São Paulo, a Madrasta e seu cúmplice, o próprio Pai da garota, arrumaram uma forma de adormecê-la.
Depois que a Madrasta esganou a Princesinha, o Pai cortou uma proteção que havia na janela e a atirou do sexto andar.

Ao contrário dos contos de fada, onde a Princesinha acorda de seu sono eterno, no mundo real Isabella Nardoni nunca mais acordou.

20 de julho de 2010



Eu Etiqueta (Carlos Drummond de Andrade)

Em minha calça está grudado um nome

Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente. 

9 de julho de 2010


Política pra que?


Eram seis horas da manhã quando Eliza percebeu que seu remédio havia acabado.
Hipertensa, desde a adolescência, ela sempre recorria a um posto de saúde público para retirar os remédios que precisava.

Ao chegar no posto, logo já se via a grande fila de pessoas que estavam lá com o mesmo intuito.
Mesmo depois de uma hora na fila, Eliza não pode retirar seus remédios por que os mesmos já tinham acabado.
_Como vou passar a semana sem meus remédios?
_Se ao menos eu tivesse dinheiro pra comprar pelo menos um dos que eu preciso...
Durante o caminho de volta pra casa, Eliza ficou pensativa.

Não era a primeira vez que isso acontecia. Nem a primeira vez que se indignara com tal situação.
Atrasada pra levar seus filhos à escola, Eliza nem tinha tempo pra colocar as idéias no lugar.
Sempre que havia uma pergunta martelando em sua cabeça, ela acabava por não ser respondida.
E assim ia.

_Por que não consigo os remédios que preciso se o governo investiu tanto dinheiro na saúde pública?
A única resposta que conseguia tirar daí era a que a funcionário do posto lhe dera: _Está em falta minha senhora. E já faz umas duas semanas. Volte semana que vem. Acho que já terá chegado.
_Mas como assim: Acho que já terão chegado?
Quantas pessoas como eu, estão precisando desse remédio?

Afinal, encontrar respostas pra esse tipo de coisa não é tão importante quando se tem de trabalhar duro pra colocar a comida na mesa.
E mesmo pra quem só tem um limite de verba destinado às compras do mês...
...Tempo é dinheiro.

Quando Eliza chegou em casa, chamou seus filhos para levá-los à escola.
Seu filho mais velho, Mateus, acordando de mau humor, já foi logo dizendo:
_Mãe hoje é o jogo do Brasil na Copa esqueceu?
Não tem aula no dia do jogo. A escola liberou.

Mas será possível? Onde já se viu? disse Eliza indignada.

À noite, Eliza não mal podia esperar pra que a novela começasse.
_Ai, é hoje que a Giovana casa com o Fernando.

De repente, um corte na novela. Era o horário político.
_Droga de horário político. Pra que vou querer ver esse bando de corrupto prometendo investir na educação dos meus filhos e em nossa saúde, se vou ao posto, e meus remédios estão em falta há três semanas?
_Eu e meu marido não pagamos imposto pra isso. E ainda por cima atrasam minha novela. Mas será o Benedito?
_Só porque a eleição está chegando eles enchem a gente de horário político.
Todo mundo sabe que o jeito é votar no “menos pior”.