Vaticano 2010: o ano das acusações
Acusações de pedofilia envolvendo padres mancham imagem da Igreja Católica
Pelo menos 300 pessoas, desde o início de 2010, acusaram padres católicos da Alemanha por abuso sexual ou físico. As denúncias estão sendo investigadas em 18 das 27 dioceses (unidades territoriais administradas por um bispo) da Igreja Católica alemã. Em meio a tantos escândalos, a credibilidade da cúpula papal começa a ser comprometida. O jornal americano The New York Times chegou a acusar o Papa Bento XVI de acobertar casos de pedofilia, pois teria ignorado cartas do cardeal de Wiscosin, enviadas em 1996 e 1997.
As correspondências revelavam que o padre americano Laurence C. Murphy, entre 1950 e 1974, abusou de 200 jovens surdos internados em uma instituição. Porém, Murphy, escreveu outra carta ao papa pedindo que considerasse sua idade, saúde precária e a prescrição dos fatos, que foram revelados 20 anos depois. Murphy morreu em 1998, aos 72 anos. A imprensa italiana não fica de fora do alvo constante de críticas: o Vaticano. Na opinião do jornalista Giancarlo Zizola, do jornal La Repubblica, “o funcionamento estrutural da igreja deixou que se instaurasse um sistema de negação e de proteção da instituição, que se tornou mais importante do que a justiça, a transparência e os direitos dos inocentes”.
No Brasil, precisamente em Alagoas, a suspeita de supostos integrantes da Máfia da Pedofilia é constantemente investigada a partir de uma série de denúncias contra padres católicos do município de Arapiraca. Denúncias e acusações como essas revelaram um vídeo do monsenhor Luiz Marques Barbosa, 83 anos, em ato sexual com o ex-coroinha Fabiano, que diz ter iniciado suas relações com Luiz há 12 anos. Fabiano disse que durante 8 anos foi seu “escravo sexual”, e só mantinha relações com o padre porque ele o ameaçava constantemente.
O padre foi preso preventivamente por pedofilia aos ex-coroinhas da paróquia de São José. De acordo com o senador Magno Malta, esse foi o meio mais eficaz de evitar a fuga do padre. "Nós descobrimos que ele tirou um passaporte recentemente. Por isso, decretamos a prisão dele", afirma. Dias depois, o monsenhor foi colocado em regime domiciliar por conta da idade e problemas de saúde.
O celibato é fator questionado também entre católicos. Seu objetivo no clero da Igreja Católica é a aproximação entre homem e Deus, baseada na vida de Jesus Cristo, que teria sido solteiro. Muitos jovens fiéis desejosos da ordenação como padres desistiram por causa do celibato. Com Reinaldo Sena , 33, professor de inglês formado pela Universidade Ibero-Americana de Letras e Ciências Humanas, não foi diferente. “Sempre tive vocação para o sacerdócio, porém, seria inevitável o conflito com a imposição celibatária, visto que é, ao meu ver, contra a própria natureza do ser humano”, conta.
Respostas do Vaticano
No dia 15 de Julho de 2010, o Vaticano, em resposta aos amplos escândalos de pedofilia que vem afetando a Igreja Católica, apresentou um novo guia de procedimentos e para casos de abuso sexual. Dentre as regras impostas, o prazo da prescrição dos delitos passou de 10 anos para 20. Assim, vítimas ignoradas e silenciadas por anos poderão ter julgamento. Lembrando também que casos de adultos com deficiência mental que sofreram abusos sexuais serão tratados como crime tão grave quanto à pedofilia.
Em uma das missas pelas vítimas de padres, na Basílica de São Pedro, em Roma, o reverendo Charles Scicluna, designado pelo Vaticano para investigar as denúncias sobre sacerdotes pedófilos em vários países, fez apologia à pena de morte e subentendeu que os condenados à sentença capital poderiam se livrar do inferno, independentemente dos crimes que tenham cometido. A declaração não deixou os fiéis muito contentes.
Apesar das várias declarações papais e normas mais severas apresentadas, uma das principais exigências dos defensores das vítimas de pedofilia não foi atendida: ordem explícita às igrejas locais de que, quando envolvidas em casos investigativos de abusos, se dirijam à justiça civil. A maioria das denúncias inclui membros da Igreja que ignoram relatos de abuso sexual e transferem para outra igreja o padre acusado. A política de expulsão imediata de padres acusados de tal crime também não foi citada no manual.
E assim, passando pela crise mais grave já vivida pelo Vaticano em muitas décadas, a Igreja continua tentando, aos poucos, se recompor de uma bateria de acusações até esse ano encobertas, e a tomar medidas eficientes quanto aos crimes já cometidos e aos que não mais deveriam ocorrer. Tarefa essa que está sendo muito difícil e demorada àqueles que sabem realmente o que traumas de abusos sexuais podem acarretar.
Matéria publicada no Web Jornal O Estado RJ
Por Renata Asp
http://www.oestadorj.com.br/index.php?pg=noticia&id=5611&editoria=Mundo&tipoEditoria=

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